O Café História O café e a imigração no Brasil
O café e a imigração no Brasil

A produção brasileira de café cresceu muito rapidamente durante todo o século XIX. A partir de 1850 ela tomou proporções muito importantes: a cifra se aproximava de 3 milhões de sacas em média por ano. A partir de 1880, quando a produção média anual ultrapassou os 5 milhões de sacas por ano, o café tornou-se o centro motor do crescimento do capitalismo no Brasil.

Simultâneo ao crescimento da produção e o deslocamento geográfico do Rio de Janeiro para os planaltos de São Paulo, surge a mão de obra imigrante. O trabalho escravo é abandonado pelo trabalho assalariado. A imigração se intensificou a partir de 1818, com a chegada de imigrantes não-portugueses, que vieram para cá durante a regência de D. João VI. Devido ao enorme tamanho do território brasileiro e ao desenvolvimento das plantações de café, a imigração teve uma grande importância para o desenvolvimento do país no século XIX.

Após a abolição da escravatura (1888), o governo brasileiro incentivou a entrada de imigrantes europeus em nosso território. Com a necessidade de mão-de-obra qualificada, para substituir os escravos, milhares de europeus chegaram para trabalhar no interior de São Paulo, nas indústrias e na zona rural do sul do país. Eles estavam em busca de melhores condições de vida e de trabalho.

O país que mais forneceu imigrantes para o Brasil e suas fazendas de café foi a Itália. A crise vivida no local e a idéia de que o Novo Mundo poderia oferecer uma vida melhor, motivaram muitos cidadãos a migrarem. Do início do século XIX a década de 1930, dez milhões de italianos deixaram o país, com direção o Brasil. (Conheça a história da família Togni)

No Brasil, o interesse em receber mão-de-obra era grande. As lavouras de café se expandiam e os movimentos abolicionistas culminaram, justamente em 1888, com a abolição da escravatura. Na época, muito se discutia sobre como substituir o trabalho escravo. A imigração iria ter enorme importância na história econômica, política e cultural brasileira. Além de italianos, alemães e portugueses, vieram também russos, suíços, poloneses, japoneses e outros grupos étnicos de menor expressão.

A vida no Brasil

Dois terços dos imigrantes chegados a São Paulo foram empregados nas plantações de café. Um contrato de trabalho padrão era preparado pelo escritório de imigração. Tratava-se de um contrato de um ano. Esse contrato previa o pagamento de um salário base proporcional ao número de pés de café atribuídos ao trabalhador. A esse salário-base juntava-se uma soma variável (uma espécie de prêmio), em função da colheita obtida. Ao lado dessas retribuições monetárias, o trabalhador recebia um pedaço de terra que podia cultivar por sua conta.

O imigrante que veio para o Brasil nesse período, pressionado pelo empobrecimento provocado pelo desenvolvimento do sistema capitalista europeu, viu aqui a chance de reverter esse quadro, com a possibilidade de se tornar, com o tempo, um pequeno proprietário rural. No entanto, a precariedade de sua situação e o endividamento contraído com o latifundiário que financiava a passagem de vinda, tornou o imigrante subalterno.

Despreparado para lidar com a realidade do trabalho assalariado, o latifundiário, habituado com os mecanismos escravocratas de coerção, criou formas de prender o imigrante através do endividamento, obrigando-o inclusive a comprar víveres na mercearia de sua propriedade. Esse tipo de mecanismo denota a coexistência de formas capitalistas e de semi-servidão no Brasil, nas portas de entrada do século 20.

Cabe lembrar que, apesar da visão eurocêntrica, que exclui o negro e opta pelo imigrante, prevalece um grande preconceito referente ao trabalho braçal, desde os primórdios da colonização, levando o latifundiário, muitas vezes, a desconsiderar a condição de homem livre que caracteriza o imigrante, inclusive colocando-o sob vigilância. Mesmo aqueles imigrantes que se dirigiam diretamente para a zona urbana e, portanto, não se defrontaram com os mecanismos da sociedade agrária e patriarcal, não iriam encontrar condições de vida favoráveis.

Até o ano 1920, os imigrantes de origem estrangeira eram maior número, e eles não aceitam sem luta a exploração a qual são submetidos. Essas lutas tomavam as formas mais diversas, e muitas vezes violentas, dada a repressão exercida pelos fazendeiros que proibiam aos trabalhadores, por exemplo, todo direito de associação. Foi assim que as plantações se tornaram o palco de várias greves, e muitas vezes, as divergências entre trabalhadores e fazendeiros ou seus administradores terminavam em tiros e assassinatos.

Em razão das condições sociais e da remuneração, os trabalhadores abandonavam voluntariamente as plantações ao fim do contrato, para procurar uma situação mais vantajosa em outras plantações, nas cidades ou mesmo em outros países da América Latina.

Os imigrantes que para o Brasil vieram, usaram recursos próprios ou foram subvencionados por seus países de origem, pelos fazendeiros brasileiros, e ainda pelo governo federal ou dos estados. Dos cerca de 3 milhões e meio que entraram no Brasil entre 1890 e 1929, estima-se que quase a metade chegou nas décadas de 1910 e 1920. As principais razões da vinda de tantos imigrantes nesse período foram, na década de 1910, o sucesso do programa de valorização do café e a adoção de uma política de incentivo à imigração. Já na década de 1920, pesaram a crise econômica européia do pós-guerra, que funcionou como fator de expulsão das populações, e a nova fase de expansão do café no Brasil, que exigia mais braços para a lavoura.

O emprego da mão-de-obra imigrante caminhou paralelamente ao desenvolvimento e à diversificação da economia brasileira. Os imigrantes foram responsáveis por um aumento substancial da produção cafeeira, seja trabalhando como empregados nas grandes fazendas, seja como pequenos proprietários. Desde o início também estiveram presentes na industrialização do país, em muito contribuindo para a urbanização das principais cidades.

O declínio da imigração

O último afluxo significativo de imigrantes ocorreu no fim da década de 1920, e vários motivos explicam o declínio verificado a partir de então: o crescimento das migrações internas na Europa, os efeitos da crise de 1929 na economia e as limitações impostas pelo governo brasileiro. Exemplo disso foi o decreto presidencial de dezembro de 1930, que procurava disciplinar "a afluência desordenada de estrangeiros", vista como responsável pelo aumento do desemprego nas cidades brasileiras.